domingo, 26 de julho de 2015

                                             


                                       Aha, Metaquiase!
                                            Por todas as nossas relações.
Paz deriva do latim pax e é um monossílabo na língua portuguesa. No entanto, o campo de possibilidades de interpretação que essa pequena palavra abre é difícil de quantificar.  Poucas vezes um vocábulo dá conta de expressar em tão poucas letras tantas significações. A impressão é que em torno dela há uma abertura em todas as direções sobre tudo que já foi dito, pensado, imaginado, cantado, sonhado, lutado acerca do que é o estado de paz.  Porque parece-me que antes de qualquer explicação ou explanação sobre esse tema se trata sobretudo, essencialmente de uma vontade de degustar, de experimentar em seu próprio corpo, em sua vida, esse benfazejo estado.
E quando me refiro a estado, minha mente é transportada para as aulas de ciências quando tínhamos os estados físicos que se dividiam em sólido, líquido e gasoso. Cada um dos três tinha características próprias que o constituíam como tal. Porém, esses estados se alteravam conforme duas variáveis: temperatura e pressão. Dependendo das alterações em qualquer uma das duas observávamos a magia da transformação dos estados físicos. Assim, metaforicamente nosso corpo passa por transformações ao longo de um dia, de um ano, de um segundo. Transformações essas que em muito se assemelham às sofridas pelos sólidos, líquidos e gases, mas que dizem respeito a uma malha complexa que compreende todas as camadas que se inter-relacionam e que de alguma maneira partem de nosso corpo físico até corpos mais etéreos como mental ou emocional.
Nesta pesquisa sobre o vocábulo Paz na língua materna e sua significação, voltei no meu tempo de criança e lembrei de quando minha mãe falava constantemente a seus filhos:- “me deixem em paz”! Colocava as mãos na cabeça como emitindo uma mensagem: não quero ouvir, nem saber de mais nada. É claro que seus onze filhos tiravam-lhe qualquer sossego.
Cresci frequentando a Igreja Católica e sentia uma intensa contradição entre o que era expressado sobre paz como sendo uma ausência de luta pelo que se queria ao mesmo tempo que se vivia em um mundo de intrigas, brigas, conflitos. Desta maneira não conseguia vislumbrar de que maneira poderia viver esta paz, pois tinha a impressão de estar constantemente sobre controle sobre todos os sentidos. Minha criança sofria das mais diferentes formas e a culpa era minha fiel companheira até nas brincadeiras mais simples, sentia medo de estar fazendo algo errado. O que levava este eu criança a estar em constante ameaça da família, da vizinhança, da Igreja, da escola? Hoje tenho a clareza de que tudo isto estava no meu interior.
Apesar disso, sempre procurei ir além e fazer, mesmo escondido aquilo que eu queria, mas não conseguia ficar em paz. Então, qual era afinal o significado de paz? Era cumprir os mandamentos da Bíblia deixados por Jesus? Era ser boazinha e fazer tudo aquilo que meus pais e professores queriam sem contestação, sem desobediência? Paz era portanto, engolir as negações e conflitos e aceitar simplesmente o que estava sendo vivido, independente dos sentimentos, parecia estar sempre em constante pressão.
Para a criança, estar em paz era morrer e ir para o céu, um lugar muito bonito, numa atmosfera diferente da Terra, com anjos, santos, flores, tudo perfeito. Entretanto, surgia a dúvida: - será que estava fazendo tudo certo, conforme a vontade de Deus, do contrário iria para o inferno. “Deus me livre”! esta expressão era comumente ouvida, imaginem um lugar horrível, com demônios terríveis com tridentes e muito fogo, gargalhadas, palavrões. Meu pai contava histórias vividas durante o período da guerra, nos mandando rezar para que tivéssemos Paz na Terra.
Existiu, porém a lembrança de um momento marcante na minha infância, incompreensível e inexplicável, mas algo real e verdadeiro. Era véspera da minha primeira Eucaristia, e estava fazendo a primeira confissão. Não sabia o que falar para o padre, sobre meus pecados, afinal tinha simplesmente, sete anos, aliás completaria no dia seguinte. Recebi a penitência de rezar alguns Pai Nosso e Ave Marias e ficar em frente ao altar pedindo perdão à Deus. Após rezar, me aproximei do altar e fiquei contemplando num estado de reverência comum para meu eu criança, sentindo uma profunda elevação, quando, de repente, tudo desapareceu se transformando num silêncio luminoso, como se não tivesse mais noção de onde estava. Não sei quanto tempo se passou, ao retornar olhei ao redor sem nada entender, nem conseguir compartilhar com ninguém. Hoje consigo traduzir as lembranças, com a certeza de um lindo momento de Paz.
Pesquisando a história da Ilha de Santa Catarina, Nossa Senhora do Desterro, atualmente Florianópolis, descritos pelo Historiador Franklin Cascaes, constato a similaridade das vivências através dos contos e retratos com as memórias da minha infância e adolescência passadas num pequeno vilarejo na região de Laguna, Santa Catarina, de colonização também portuguesa, como Florianópolis.
, Em relatos antropológicos verifiquei descrições relativas a organização social, as relações de parentescos e compadrio, as quais apontam uma relação solidária de ajuda mútua, comum nas culturas indígenas brasileiras.
Era comum existirem famílias numerosas cujas residências construídas ao longo do terreno dos pais e avós, formavam um aglomerado, suscetível à trocas e partilhas. Lembrei de minha família materna, que se constituía de igual forma e frequentemente se reuniam para colher café, laranja, jabuticaba e outras, após a colheita dividiam tudo, em partes iguais. Estas reuniões eram marcadas por muita conversa, brincadeiras, risadas. Creio ser este um momento de paz familiar.
Ressalto também, a importância das atividades femininas na organização e manutenção da ordem familiar, cabendo aos homens a sustentabilidade do grupo, a qual se baseava na pescaria e agricultura de subsistência, das culturas de milho, feijão, bananas e mandioca para produção de farinha. Estes eram também, outra oportunidade de congraçamento, “a farinhada” que ocorriam nos” engenhos de farinha”, onde as mulheres raspavam a casca da mandioca, faziam os bijus, recolhiam o polvilho, para a fabricação de roscas, broas, bolachas e demais...Cabia aos homens, o trabalho pesado nas engrenagens artesanais, utilizando a força bovina para a fabricação da farinha.
Nos relatos de Cascaes, observo sua descrição de um povo simples, reunidos pela crença religiosa, essencialmente católicos, vivendo de forma pacífica e harmoniosa. Entretanto, como vivente desta mesma história, questiono esta passividade, talvez atribuída a uma aceitação deste “dever ser” passado de geração à geração, condicionando aos moradores à continuidade paradigmática, cujas pressões internas geradoras de estados se manifestavam através de intrigas, fofocas, situações conflituosas, conhecidas popularmente como brigas. Tudo isto causava tumultos, confusões, ressentimentos que logo eram apaziguados por familiares, geralmente as anciãs ou autoridades religiosas, e as partes faziam as pazes e ficava tudo bem.
Embora, ressalte a importância do trabalho da mulher, este era pouco valorizado, por vezes quase invisível, pois não gerava renda, sendo assim pouco considerado. Esta, porém exercia um controle de tudo, inclusive das próprias atividades do marido e filhos, que a respeitava como sua legitima companheira, por vezes referindo – se a ela em tom de brincadeira como “a patroa”. Além disto, levava a fama de feiticeira, a qual causava um certo respeito e também medo.
O misticismo e obscurantismo era muito comum e corriqueiro, favorecidos pelo distanciamento das casas, a falta de iluminação e a convivência ainda com a natureza virgem, com a presença de uma vegetação densa e abundante, inúmeras espécies de animais e pássaros. As lendas eram passadas de pais para filhos, muitas ouvi de meu pai, seu relato sobre o Boitatá, como um fogo que corria,” e quando este corria atrás de alguém era assustador, pois quanto mais a pessoa corria mais ele ficava forte”.
Os fantasmas eram também vistos com certa frequência, pincipalmente em algumas áreas consideradas assombradas, respeitadas por todos. Havia, no entanto,  histórias fantásticas de aventureiros que fizeram enfrentamentos e passaram por experiências inusitadas e aterrorizantes.
Dignas de destaque estão as bruxas e as benzedeiras, ambas estigmatizadas pelas comunidades, porém extremamente respeitadas. Esta cosmologia mitológica gerava um empoderamento atribuído a ambas, contraditoriamente às orientações religiosas, levando os moradores dos povoados, à procura – las às escondidas nos momentos de apuros da vida cotidiana, ao mesmo tempo em que as negavam, maldiziam e as marginalizavam. Quando ficávamos doentes minha mãe recorria as benzedeiras, e levava–me junto para anotar as orientações de tratamento, neste tempo tinha por volta de seis anos mas já conseguia ler e escrever, entretanto me lembro da grande preocupação de minha criança em se manter atenta, para filtrar entre os rezos de uma linguagem incomum, as indicações de procedimentos e ervas medicinais.
Além da área relativa à saúde, eram também procuradas como oráculo, para ajuda nos negócios e relacionamento amorosos, principalmente quando necessitavam de uma tomada de decisão, entretanto inúmeras vezes presenciei cenas consideradas por mim de grande hipocrisia, elas além de ocuparem o último banco na igreja durante os eventos religiosos, eram ignoradas ou cumprimentadas de maneira disfarçada, pelas próprias pessoas que as procuravam.
Quanto às mulheres consideradas bruxas, eram rechaçadas pelos moradores. Atribuía-se a elas todas as desgraças, doenças das crianças, prejuízos e azares. Em estudos baseados em literaturas romanescas da época, são descritas como mulheres que não se submetiam a ordem social vigente, a religiosidade imposta pelo catolicismo. Desenvolviam culto à natureza e ao considerado sobrenatural. Geralmente se isolavam em grupos ou clãs e praticavam rituais descritos como fonte de busca de poder de uma espiritualidade sem limites. Por ameaçarem a continuidade da ordem e controle social, eram caçadas como aliadas do diabo, por movimentos de pessoas que se intitulavam de defensores da sociedade, quase sempre liderados por maridos abandonados e mulheres beatas que viam no seu fanatismo uma necessidade de defesa da família, enquanto instituição social e a manutenção dos bons costumes.
Hoje, diante deste olhar para o passado, ainda vejo escondido pela modernidade estas contradições e cosmologias. Através do meu trabalho, vivo este contato com a bruxa e a benzedeira, presentes em mim, percebendo em muitos momentos como esta negação inconsciente de um poder transracional, transformador, curador é aceito com restrições e preconceitos. O próprio termo curandeirismo é proibido, seu uso pela legislação oficial está sujeito às condenações e sanções legais.
Tenho convivido com populações indígenas onde não se percebe tais questões, sendo tudo isto tratado e vivenciado, na sua originalidade de uma forma simples e natural, embora surjam o enfrentamento de outras formas de conflitos que são tratados de forma aberta, sem máscaras e ou ressentimentos. Isto se torna evidente na própria linguística, cujo idioma não contempla muitos dos termos usados em português. Perguntei a um Cacique de uma aldeia Guarani, sobre a escrita e o significado da palavra paz ao que me respondeu: “Na língua Guarani não existe propriamente uma palavra que signifique paz em português, como não tem definição especifica no vocabulário Guarani, dependerá do que se fala, usamos o vocábulo “porã” que significa bom, bem, bonito que para mim é o que mais se aproxima.  Se quisermos falar “vamos ficar bem ou em paz” diz-se “nhande kuai porã”. “Epyta porã”, fique bem ou em paz. “Ore kuai porã”, estamos bem ou estamos em paz. “Nhande nhee kuery ma petein porã rami ikuai”, nosso espírito está sempre como um só, em constante paz.”
Talvez a palavra Paz seja uma expressão para lembrar da necessidade de retornar a origem, impressa e expressada na Natureza, da qual imaginei um dia ter conseguido me separar,   desta forma me sentir diferente e assim dissociada de seu natural poder. Também percebi que a necessidade de transformar conflitos, seja simplesmente poder acessar, em todos os sentidos, esta compreensão indígena de viver bem, com beleza, alegria... lembrar da vida em estados plenos, estados de Deus, Namastê, Nhanderú, Haux, Aguyjevete, Siyabonga, Saravá, wakantanka, Ometeotl, Grande Mãe, Madre Tierra, Grande Espírito, Grande Mistério.

Viver simplesmente como o” Um no Todo e o Todo no Um”, por todas as nossas relações.
Aho e Aha Mitakuye Oyasin!!!

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