terça-feira, 21 de agosto de 2012

Temazkal - Contos Vivenciais

A maioria de nós sente ou já sentiu muito medo do desconhecido. Este medo é algo que não tem explicação, pois a sensação está presente, mas não está claro o motivo ou justificativa, entretanto nos sentimos impedidos de realizar coisas ou atividades, que temos vontade de fazer.
Nesta Tradição, Caminho Vermelho, me foi oferecida esta oportunidade a qual abracei como um grande desafio:- vencer este medo.
Temazkal, o que será isto? Alguém me falou um pouco sobre a atividade, definindo-o como uma sauna indígena, que representava o útero da Mãe Terra. Que era uma tenda construída a partir dos ensinamentos dos antepassados, passados de geração à geração , cujo entrelaçamento de varas formava desenho de uma estrela no teto. Tudo isto me deixava muito fascinada. Esta tenda era coberta por lonas e cobertores, ficando uma abertura chamada de porta, seja, um cobertor fica solto, para que a porta seja aberta e/ou fechada. A porta se abre quatro vezes, cada uma com uma orientação.Primeira porta é da apresentação, a segunda do propósito, a terceira da realização o momento de rezar ao Grande Espírito e à Mãe Terra, pela concretização do nosso propósito e a quarta do agradecimento.
Se observarmos nossa vida , nossas relações seguem estas quatro fases, de diferentes maneiras, como um indicativo de caminho para chegar onde queremos.
Chegado o momento da cerimônia, o homem que cuidava do fogo, chamado de homem fogo, pede aos presentes que formem uma fila para a entrada organizada na seguinte ordem, primeiro as crianças,a seguir as mulheres, os casais e os homens. todos entram agachados engatinhando, em sinal de humildade, também para lembrar nossa caminhada na terra.
Fomos sentando em círculo ao redor de uma cavidade no centro da tenda, onde foram colocadas as pedras
vermelhas do aquecimento numa fogueira, trazidas pelo homem fogo até um homem que ficava na porta, chamado homem porta, tudo que entrava e saia  passava por ele. Então primeiro, entravam as ervas medicinais, após as pedras, também chamadas de avós, por serem consideradas as ancestrais mais antigas da terra, ou seja, a união do fogo com a água,depois os instrumentos, o tambor e a maraca e finalmente a água.
O corredor do temazkal agradeceu  a tudo e a todos pedindo para fechar a porta.
O local ficou muito quente e escuro, as pessoas falavam seguindo a orientação de cada momento e o suor era abundante.Era como se tomássemos chá das ervas colocadas nas pedras. O vapor, os aromas, o calor e o escuro associados ao toque dos instrumentos acompanhados de cantos tradicionais provocavam uma onda indescritível  de magia, e sensações jamais vividas. Incrível os sentimentos que despertavam em mim, era um misto de saudade misturado com tristeza, alegria e medo, me trazia uma memória de algo já vivido, porém, sem qualquer noção de tempo e espaço.
Era muito mágico, lavava por dentro, desocupava minha mente e acalmava meu espírito. Houvia e sentia mais intensamente as batidas do meu coração e não sabia mais como proceder diante daquilo tudo, daquele imenso medo do desconhecido, mas não tinha saída, apenas experimentar o que estava acontecendo sem luta, me entregando apenas, nas mãos do Mistério.
Ahá Metakiase! Santas palavras... era o recado para o homem fogo, como uma senha, que era para abrir a porta. Só mais tarde, compreendi o significado, uma saudação, um reconhecimento que todos somos um e assim agradecendo a todas as nossas relações e nestas estão incluídos todos os seres , independente de origem, de raça, de credo, cor e espécie...
Quando terminou a cerimônia, todos saíram engatinhando como entraram e ao sair ou entrar, falavam as palavras Ahá, para as mulheres e Aho para os homens, como uma saudação, um agradecimento.
Ao sair agradecemos ao homem fogo e ao corredor do temazkal e em fila íamos nos abraçando, agradecendo, era muito alegre e confortante. A sensação pós ritual era algo inexplicável, significativo, foi um banho integral, todos estavam alegres, leves, felizes,muito agradecidos.
Hoje já passaram 13 anos e grandes momentos tenho  vivido, mas entrar no Inipi é como  se estivesse, sempre, entrando pela primeira vez, com reverência e respeito, mas também com alegria e agradecimento.
Percebi que o estado de agradecimento produz estado de graça, no qual nos sentimos merecedores de receber abundância de vida. Quando estou no estado de abundância è como sentir o céu aberto, as coisas acontecem, tudo flui, fica sincronizado. Sentir-me conectada é mais importante que os próprios acontecimentos, reconhecer o rezo dos antepassados, dos nossos ancestrais, que um dia rezaram pelas futuras gerações, e hoje eu estou aqui vivendo esta benção, como um ponto  numa grande rede, ligada numa onda de rádio, tendo como referência as sete direções,Leste, Sul  Oeste e Norte, o Céu , A Terra e o nosso Coração.
Assim quero fortalecer este rezo pelas sete futuras gerações, que esta terra possa ser vivida com beleza, alegria e abundância, regada pela paz e o amor presente em nossos corações.

Ahá  Mitakuye Oyasin!!!!


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